Precisamos desmedicalizar o sono…
Dormir não é apenas uma função biológica: é também um território de reparação, sonho e reconexão
Nas últimas décadas, o sono deixou de ser visto como uma experiência natural da vida humana para se tornar, muitas vezes, um fenômeno excessivamente medicalizado. Algo semelhante aconteceu com a gestação e o parto ao longo do século XX: processos profundamente humanos foram sendo progressivamente deslocados para o campo da técnica, dos protocolos e dos especialistas. É claro que a ciência do sono trouxe contribuições valiosas. Hoje sabemos muito mais sobre apneia, insônia, ritmo circadiano, fases do sono, neurotransmissores e arquitetura do repouso. Mas, em algum ponto dessa trajetória, talvez tenhamos perdido de vista o mais importante: a pessoa que dorme.
Dormir bem não deveria depender apenas de exames, aplicativos, relógios e anéis especializados, gráficos ou medicamentos. O sono saudável nasce também de uma relação mais íntima com o corpo, com o quarto, com a noite e com os próprios sonhos. Em outras palavras, precisamos recuperar o sono como uma prática diária de cuidado — não apenas como uma meta biomédica.
SONO
O sono é uma das atividades mais profundamente parassimpáticas do organismo. Pode ser entendido como oito horas de respiração profunda, meditação involuntária e reparação silenciosa. Durante a noite, o corpo equilibra hormônios, regula o metabolismo, reduz a pressão arterial, fortalece a imunidade, repara o DNA e ajuda a elaborar traumas emocionais. Não é um intervalo passivo entre dois dias produtivos. É um período ativo de restauração física, psíquica e espiritual.
A ciência descreve o sono em duas grandes fases: sono não REM e sono REM. O sono não REM se divide em três estágios. O N1 é o sono leve, quase uma transição entre vigília e repouso. O N2 representa uma desaceleração mais clara do cérebro, do coração e da temperatura corporal. Já o N3, conhecido como sono profundo ou sono de ondas lentas, é essencial para a consolidação da memória e para várias funções reparadoras. O sono REM, por sua vez, é a fase em que ocorrem os sonhos mais vívidos. Nessa etapa há movimentos rápidos dos olhos, intensa atividade cerebral, variações respiratórias e cardíacas, além de relaxamento muscular profundo.
Em um adulto jovem saudável, cerca de 20% a 25% da noite costuma ser ocupada pelo sono REM. Curiosamente, essa é uma das fases mais vulneráveis às interrupções.
Apneia obstrutiva do sono, despertares frequentes pela manhã, consumo excessivo de álcool, alguns medicamentos anticolinérgicos, hipnóticos e antidepressivos podem reduzir ou suprimir o sono REM. Por isso, talvez estejamos não apenas privados de sono, mas também privados de sonhos.
SONHOS
E os sonhos importam. Em muitas culturas indígenas e tradições espirituais, dormir é também uma forma de entrar no mundo dos sonhos. Na medicina asklepiana da Grécia antiga, sonhar era parte central do processo de cura. A psicologia profunda também reconheceu os sonhos como portais para conteúdos inconscientes, símbolos, conflitos e possibilidades de transformação. Ainda que a neurociência explique o sonho em termos de processamento de memória, aprendizado e regulação emocional, essa visão não precisa excluir sua dimensão subjetiva e espiritual.
Perguntar a um paciente sobre seus sonhos pode abrir uma janela preciosa. Sonhos muito escassos, ausentes ou excessivamente fragmentados podem sugerir sono REM reduzido.
Pesadelos recorrentes ou sonhos hipnagógicos repetidos (sensação de estar caindo, de ter alguém no quarto, etc.) podem aparecer em contextos como trauma, narcolepsia ou estresse importante.
—Mais do que interpretar cada imagem, cultivar atenção aos sonhos pode ampliar a percepção sobre a própria vida interior.—
ONDE DORMIMOS
Mas antes de falar em sonho, é preciso falar em ambiente. O quarto é um dos grandes aliados — ou inimigos — do sono. Existe um princípio comportamental chamado controle de estímulos: quando o cérebro aprende que o quarto é um lugar associado ao descanso, o próprio ambiente passa a funcionar como um sinal para dormir. O contrário também é verdadeiro. Se a cama se transforma em escritório, sala de televisão, restaurante ou espaço de rolagem infinita no celular, o cérebro deixa de reconhecer aquele local como território de repouso.
Por isso, criar um “santuário do sono” é uma medida simples e poderosa. Cortinas que bloqueiem a luz, iluminação baixa, filtros de luz azul, temperatura fresca, aromas suaves como lavanda e uma estética visual tranquila podem ajudar o corpo a compreender que a noite chegou. Princípios do Feng Shui também chamam atenção para a importância da organização do espaço, da circulação de energia e da harmonia entre os elementos do quarto. Mais do que decoração, trata-se de construir um ambiente que convide à entrega.
HIGIENE DO SONO
Os comportamentos antes de dormir também têm papel decisivo. O corpo precisa de uma transição. Atividades como exercício vigoroso à noite, televisão, trabalho no computador, conversas longas ao celular na cama, refeições pesadas ou ingestão de líquidos perto da hora de dormir podem ativar o cérebro e dificultar o adormecimento. Em seu lugar, práticas mente-corpo podem funcionar como rituais de passagem: relaxamento muscular progressivo, respiração profunda, meditação, autohipnose ou uma oração silenciosa. O ponto central é a repetição. Quando o ritual se torna regular, o corpo reconhece o caminho.
O ritmo circadiano é outro protagonista. Ele é profundamente regulado pela luz e pela escuridão. Ao anoitecer, a melatonina começa a subir, sinalizando ao organismo que é hora de repousar. Pela manhã, a luz natural suprime a melatonina e favorece o estado de vigília. Por isso, a exposição à luz intensa pela manhã — especialmente ao ar livre — pode melhorar disposição, humor, metabolismo e sono noturno. À noite, o ideal é reduzir a luminosidade, evitar luz azul e preferir ambientes mais escuros e suaves.
Também existe a pressão homeostática do sono: quanto mais tempo passamos acordados, maior a necessidade química e fisiológica de dormir. Substâncias como adenosina, GABA, glicina e melatonina participam desse processo. Cochilos curtos, de até 20 minutos, podem ser fisiológicos, especialmente no início da tarde. Mas dormir demais durante o dia pode reduzir essa pressão e dificultar o sono noturno.
SONO NAS DIFERENTES FASES DA VIDA
Ao longo da vida, o sono muda. Bebês passam grande parte da noite em sono REM. Adultos jovens têm mais sono profundo. Com o envelhecimento, há redução natural da duração total do sono e do estágio N3. Ao mesmo tempo, aumentam condições que podem fragmentar a noite, como dor crônica, apneia, síndrome das pernas inquietas, noctúria e isolamento social. Em idosos, a qualidade do sono também se relaciona com suporte emocional, contato familiar, vínculos sociais e resiliência.
Talvez, então, dormir bem não seja apenas “corrigir” o sono. Seja reaprender a habitá-lo. Bons dormidores frequentemente dizem que simplesmente amam dormir. Essa frase revela algo essencial: o sono não é só uma ferramenta para render mais no dia seguinte. É uma experiência prazerosa, íntima e vital.
Desmedicalizar o sono não significa negar a medicina. Significa devolver ao sono sua inteireza. Ciência, ambiente, comportamento, subjetividade, sonhos e espiritualidade podem caminhar juntos. Porque dormir bem não é apenas apagar. É descer, todas as noites, a um território silencioso onde o corpo se repara, a mente se reorganiza e a alma talvez encontre espaço para sonhar.