Durante milhares de anos, plantas medicinais foram utilizadas com base na observação e nos sistemas tradicionais de cuidado.
Ayurveda, Medicina Tradicional Chinesa, práticas indígenas e tradições europeias construíram repertórios terapêuticos muito antes dos ensaios clínicos. Esse conhecimento tem valor — mas não equivale, por si só, à comprovação científica de eficácia e segurança.
Nas últimas décadas, a pesquisa com produtos botânicos cresceu. Estudos farmacológicos identificaram milhares de substâncias presentes nas plantas, enquanto ensaios clínicos investigaram possíveis benefícios para sono, ansiedade, sintomas digestivos, dor e desempenho físico. Com a expansão do mercado de suplementos, surgiu um desafio adicional: separar ciência de propaganda e promessas que ultrapassam os dados disponíveis.
Uma planta não é uma molécula isolada
Uma erva pode conter centenas ou milhares de constituintes químicos. Alguns exercem efeitos fisiológicos mais conhecidos e são chamados de constituintes ativos; outros funcionam como marcadores de identidade ou de controle de qualidade. Alcaloides, flavonoides, terpenos, taninos, saponinas e polissacarídeos são alguns dos grandes grupos encontrados nas plantas medicinais.
O efeito de um fitoterápico raramente depende de uma única substância. Os compostos podem atuar de maneira aditiva, complementar ou até oposta. Por isso, chá, tintura, pó e extrato concentrado não são necessariamente intercambiáveis: podem apresentar concentrações, biodisponibilidade e efeitos diferentes.
Também importa saber qual parte foi utilizada. Raiz, folha, fruto e casca podem ter composições distintas. Nome botânico, parte empregada, método de extração e dose são informações fundamentais.
O que significa “extrato padronizado”?
Padronizar um extrato significa controlar a quantidade de um ou mais compostos químicos entre diferentes lotes. Isso aumenta a reprodutibilidade e torna a dose mais previsível. No entanto, o marcador escolhido nem sempre é o único responsável pelo efeito terapêutico — e, em muitas plantas, nem sequer sabemos quais componentes explicam integralmente o benefício observado.
Por isso, “padronizado” não é sinônimo automático de eficaz, seguro ou superior. De acordo com o Office of Dietary Supplements dos National Institutes of Health, a padronização não tem definição regulatória legal nos Estados Unidos e sua presença no rótulo, isoladamente, não garante qualidade.
Por exemplo, se uma cápsula de 275 mg de extrato de chá-verde contém 80% de catequinas, ela fornece 220 mg desses compostos. Se metade corresponde a EGCG, haverá 110 mg. Essa precisão é útil, mas não diz se a dose foi estudada, se há contaminantes ou se o produto é apropriado para aquela pessoa.
Como avaliar a evidência sem cair em simplificações
O primeiro passo é identificar exatamente o produto estudado. Ensaios realizados com um extrato específico não podem ser automaticamente extrapolados para qualquer cápsula, chá ou tintura da mesma planta. É preciso observar espécie, parte utilizada, processo de extração, concentração, dose, duração e população estudada.
Depois, deve-se avaliar a qualidade: houve placebo, randomização e mascaramento? A amostra foi adequada? O desfecho era clinicamente relevante? Os resultados foram reproduzidos de forma independente? Houve participação do fabricante?
Revisões sistemáticas e metanálises oferecem uma visão mais ampla, mas não corrigem estudos pequenos ou de baixa qualidade. Quando as preparações são muito distintas, uma média favorável pode esconder incerteza clínica.
Ashwagandha: um bom exemplo dos limites atuais
A ashwagandha (Withania somnifera) é utilizada na Ayurveda como rasayana, ou agente restaurador. Hoje é divulgada para estresse, sono, ansiedade e desempenho físico. Estudos sugerem possível benefício para estresse e insônia, mas os ensaios costumam ser pequenos e usar extratos, doses e durações diferentes.
O National Center for Complementary and Integrative Health considera que algumas preparações podem ajudar no estresse e na insônia, mas classifica como incerta a evidência para ansiedade e insuficiente para desempenho esportivo, cognição, diabetes, menopausa e infertilidade feminina. Portanto, dizer que a planta possui propriedades anti-inflamatórias ou neuroprotetoras em estudos experimentais não significa que ela trate doenças inflamatórias ou neurológicas em seres humanos.
A segurança também exige cautela. O uso por até três meses parece ser bem tolerado por muitos adultos, mas faltam dados sobre uso prolongado. Sonolência, desconforto gastrointestinal, diarreia e vômitos podem ocorrer, e foram descritos casos raros de lesão hepática. Deve ser evitada na gestação e na amamentação e requer atenção em pessoas com doenças tireoidianas ou autoimunes, antes de cirurgias e durante o uso de sedativos, anticonvulsivantes, imunossupressores, hormônios tireoidianos e medicamentos para diabetes ou hipertensão.
Natural não significa inofensivo
No Brasil, é fundamental diferenciar medicamentos fitoterápicos de suplementos alimentares. Os medicamentos fitoterápicos são regularizados pela Anvisa como medicamentos e precisam atender a requisitos de qualidade, segurança e eficácia. Já muitos dos suplementos são classificados como alimentos: podem conter apenas constituintes autorizados, dentro dos limites estabelecidos, e não podem alegar prevenção, tratamento ou cura de doenças.
A notificação sanitária, entretanto, não significa que a eficácia clínica de cada produto tenha sido comprovada para todas as finalidades anunciadas no mercado.Selos independentes podem ajudar a confirmar identidade, pureza e ausência de certos contaminantes, mas não comprovam eficácia nem garantem que um produto seja adequado para todos.
A melhor pergunta, portanto, não é simplesmente “essa planta funciona?”. É: qual preparação, em qual dose, para qual objetivo, em qual paciente e com qual nível de evidência? Integrar tradição e ciência não significa desprezar a experiência histórica nem aceitar toda promessa “natural”. Significa reconhecer potenciais benefícios, incertezas e riscos — e transformar informação em uma decisão clínica individualizada e responsável.
Fontes principais
• National Center for Complementary and Integrative Health. Ashwagandha: Usefulness and Safety.
• NIH Office of Dietary Supplements. Botanical Dietary Supplements: Background Information.
• U.S. Food and Drug Administration. Dietary Supplements.
• https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/alimentos/suplementos-alimentares
• https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/medicamentos/publicacoes-sobre-medicamentos/orientacoes-sobre-o-uso-de-fitoterapicos-e-plantas-medicinais.pdf